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Psicologia Positiva e Capitalismo Consciente
20/01/2020 - por Claudemir Oliveira

 

Minha paixão pela Psicologia Positiva começou quando cheguei aos Estados Unidos no ano de 2000. Esta nova ciência tinha acabado de “nascer”, em 1998, tendo como seu pioneiro Martin Seligman. Sabemos que há séculos se fala sobre bem-estar, sobre felicidade, mas, como ciência, ela é bem “jovem”. Martin Seligman, ao assumir a maior associação de psicólogos do mundo, a American Psychological Association (APA), colocou como seu principal objetivo, como presidente daquela entidade, a busca, a pesquisa pelo que motiva o ser humano a ser feliz. A psicologia tradicional focou por décadas e décadas nos problemas humanos, na patologia enquanto a Psicologia Positiva decidiu abraçar as potencialidades. Abro um parêntese rápido para explicar que a Psicologia Positiva reconhece os avanços da tradicional especialmente na descoberta de medicamentos contra depressão, ansiedade, etc. Também, é importante salientar que não deixamos de falar dos problemas humanos, apenas focamos mais nas potencialidades.

Nos últimos anos, me apaixonei por outro tema fascinante, aqui nos Estados Unidos, que é o Capitalismo Consciente. Assim como a Psicologia Positiva, são temas ainda pouco explorados no Brasil, mas isto é uma questão de tempo. Ao buscar no Google, não encontrei trabalhos relacionando estes dois temas e decidi, então, escrever este pequeno artigo.

O capitalismo Consciente existe para gerar prosperidade de forma humanizada. Existem quatro pilares que definem esta área: liderança consciente, propósito maior, orientação para acionistas e cultura consciente.

Os dois temas, por serem novos no Brasil, geram, às vezes, ironias. Como já falo sobre Psicologia Positiva no mundo corporativo desde o ano 2000, além de ter introduzido esses conceitos com meus colaboradores na American Airlines, United Airlines (antes mesmo de 1998) e Disney, ouvi comentários do tipo: Claudemir, então a gente agora coloca um óculos rosa e a vida fica linda, é isso? “Não, não é isso” era minha resposta. Quando a ironia era um pouco mais agressiva, eu indicava literatura e dados para uma maior conscientização sobre o tema. Um dos exemplos clássicos que uso é que são instituições do peso de Harvard University, Pennsylvania University, Michigan University, Yale University que lideram este movimento. Aliás, a aula mais procurada na Harvard University, desde sua criação, em 1636, se chama Psicologia Positiva.

O mesmo tipo de ironia tenho visto sobre o Capitalismo Consciente. Acham que é moda. Moda? Será que instituições como Starbucks, Whole Foods Market, The Container Store, entre outras, iriam brincar de Capitalismo Consciente? Se estas empresas não indicarem alguma coisa, que tal os números? Existem pesquisas, e estas empresas comprovam, que aqueles que estão se interessando e estudando o Capitalismo Consciente estão lucrando 10 vezes mais que as empresas concorrentes. Qual seria o segredo para isto? Acredito que, nos parágrafos anteriores, temos a resposta, principalmente se analisarmos os quatro pilares. Um que me chama muita atenção é propósito maior. Em minhas consultorias, workshops, seminários e programas de negócios, uma pergunta frequente é: Claudemir, como podemos engajar nossos colaboradores? Minha resposta é simples: propósito. Se os colaboradores não conseguirem entender qual é o propósito da empresa, não há aumento de salário, não há sistema de gratificação, não há treinamento que resolva. Os colaboradores estão buscando muito mais que uma empresa, mas uma empresa que tenha um algo a mais, ou seja, um propósito. Tudo isto é feito através de outro tema fascinante: storytelling.

A palavra chave é a consciência que se tem desse capitalismo. Não é uma simples questão de ganhar dinheiro, mas o motivo pelo qual ganhamos dinheiro e como o usamos dentro do contexto corporativo e social. Estas empresas tem várias práticas que acabam engajando seus colaboradores. The Container Store, por exemplo, criou um fundo milionário cujo objetivo é proteger seus próprios colaboradores num caso, por exemplo, de um furação, uma doença grave, etc. O Starbucks não abre mão de seu plano médico e anunciou recentemente pagamento de universidade para todos os seus colaboradores, incluindo os que trabalham apenas meio período. Na Disney, líderes e liderados iam doar sangue juntos ou distribuir presentes no Natal. São vários os exemplos que merecem reflexão. Meu sonho como empresário é fundar um dia a Seeds of Dreams Foundation onde utilizarei uma parte da lucratividade de meu instituto para causas nobres e que tenham propósito. Minha paixão pelo Capitalismo Consciente é tão grande que não uso mais a palavra missão, e sim propósito, na minha empresa. Num mundo regido por dinheiro por muito tempo, é refrescante ver a ideia do Capitalismo Consciente surgir. É um vento de esperança. Ver homens como Bill Gates, Warren Buffett e tantos bilionários falando de filantropia num mundo capitalista é como música para meus ouvidos. Acredito que dinheiro por dinheiro não gera riqueza. Capitalismo Consciente gera duas riquezas, a social e corporativa.

Para terminar, aqui correlaciono as duas “ciências”. Martin Seligman (2011), em seu livro Florescer, fala do modelo dos componentes do bem-estar PERMA que podem ser traduzidos a seguir:

  • Emoções Positivas (P – Positive Emotions)
  • Engajamento (E – Engagement)
  • Relacionamentos (R – Relationships)
  • Significado (M – Meaning)
  • Realização (A – Achievement)

Acredito que o Capitalismo consciente tem muito dos cinco exemplos acima, mas o que mais me chama a atenção é o Significado (Meaning). Em todos os estudos da Psicologia Positiva, que também é chamada da ciência da felicidade, esta palavra aparece. Viktor Frankl, meu psicólogo favorito, diz que quando não temos um significado, quando não temos um propósito na vida, vivemos no que ele chama de “vácuo existencial”. Sei que é complicado fazer paralelos, mas poderia fazer uma adaptação: empresas que não encontraram ainda o motivo de sua existência vivem num vácuo existencial e por isto colaboradores não conseguem “se encontrar”. Engajamento, seja na vida pessoal ou profissional, passa primeiro por uma conscientização de propósito.

No livro “O jeito Harvard de ser feliz”, de Shawn Achor, um dos meus favoritos autores da Psicologia Positiva (por sua forma simples de escrever), professor da Harvard, relata o princípio do sucesso. “A sabedoria popular por gerações acreditou que se nos empenharmos teremos sucesso, e se tivermos sucesso, então, poderemos ser felizes. Mas descobertas recentes têm demonstrado que essa fórmula funciona, na verdade, de maneira inversa. É a felicidade que impulsiona o sucesso, e não o contrário.” Eu, particularmente, nunca gostei da frase “dinheiro traz felicidade”. É exatamente o oposto. É a felicidade pelo que se faz que “atrai” o dinheiro. É só olhar no mundo artístico, esportivo. É a paixão deles pelo que fazem que os fazem ricos. É a causa, é o propósito (felicidade) que gera uma consequência (dinheiro). No mundo capitalista, poucos entendem esta simples “equação”. Todos estes princípios são comprovados cientificamente por pesquisas rigorosas nos campos da Psicologia Positiva e da Neurociência.

Deixo claro que este é um texto generalizado e que não vivo no país da Alice ou da Polyanna. Sei que estamos longe desse mundo que desejamos, mas a esperança deve nos mover nesta direção. A Psicologia Positiva e o Capitalismo Consciente, então, são bússolas em nossa constante busca de um mundo melhor. Para não me estender, deixo apenas a reflexão para que possam ler mais a respeito do assunto e espero encontrar cada um de vocês no campo das sementes de sonhos. Sementes com propósito como o Seeds of Dreams Foundation que um dia passará de sonho à realidade.

 

 
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